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ANIMAIS, OS NOSSOS PROFESSORES



A cultura judaico-cristã nos ensinou a ter medo dos animais selvagens e de nossa própria natureza animal. Nossa atual cultura nos doutrinou a “dominar a terra” e similarmente nos ensinou a dominar o nosso próprio ser instintivo. Com o intuito de nos tornar extremamente civilizados, foi criada uma divisão entre o espírito e a matéria, e entre a mente o corpo - o efeito colateral deste processo fez com que os nossos “animais interiores” ficassem engaiolados, assustados e esquecidos. Mas, paradoxalmente, enquanto rejeitarmos os animais que existem em nós, jamais poderemos ser “realmente humanos”, e para recuperar a nossa humanidade temos de nos acolher, amando e conhecendo estes seres que habitam os nossos corações e as nossas almas. Trabalhar com os animais sagrados pode ajudar-nos em nossa autocura, nos apresentando uma fortaleza de sabedoria tradicional que arriscamos agora reclamar como nossa e usar a nosso benefício e para o benefício de todos os seres vivos.


ANIMAIS INTERIORES, ANIMAIS DE PODER E GUIAS TOTÊMICOS


Trabalhar com os Animais nos coloca em contato com estes diferentes aspectos:


1) Isso pode despertar em você o amor pelos animais que existem no mundo físico. Observando sua beleza inerente e suas características;


2) Somos capazes de acessar os nossos Animais Interiores. Em muitas vezes os animais agem como símbolos ideais ou imagens (arquétipos) dos nossos medos e anseios mais profundos ou de partes da nossa psique que foram negadas, reprimidas ou simplesmente negligenciadas. Ao acolher e nutrir os animais que entram em nossa consciência, seja através de um oráculo, por meio de sonhos, meditações ou viagens astrais, enriquecemos o nosso mundo interior e descobrimos um caminho de crescimento pessoal que está em perfeita sintonia com o mundo natural;


3) Tal como em outras vias indígenas, na tradição druídica existem os Animais de Poder, onde acredita-se que os animais também existem sobre a forma espiritual, no Outro Mundo, e que por vezes, esses animais podem nos visitar para nos dar energia ou cura, inspiração ou conselhos. Cada animal tem um poder específico, dom ou “remédio” e por isso são geralmente chamados de “animais de poder”;


4) Existem os animais conhecidos como Totem ou Totens Animais. Quando optamos por trabalhar com Animais de Poder, desenvolvemos uma relação especial com um ou mais deles. Muitas vezes iremos sentir a sua presença em nossa consciência, nos guiando, ensinando e ajudando. Podemos então dizer que estes Animais de Poder se tornaram os nossos “totens” ou “familiares”.


Neste momento, temos a oportunidade em praticar a nossa espiritualidade nativa, da qual finalmente começamos a recordar. Através dos animais nos ligamos a uma tradição que nunca chegou a se perder totalmente. Esta tradição, que já existia muito antes do advento do Cristianismo, é composta de muitas ramificações: saxônica, nórdica, grego e romana, entre outras – mas, ainda anteriores a estas, temos as crenças e práticas nativas dos Celtas e dos Druidas que se encontram na sua fundação.


Se ampliarmos nossas compreensões, perceberemos que não há uma separação entre o nosso mundo interior e exterior. À medida que o mundo selvagem é erradicado da sociedade, vamos fazendo com que esse elemento selvagem igualmente desapareça em nós. Quando um animal se extingue, da mesma forma morre algo em nós. Quando abusamos do nosso meio ambiente exterior, em igual medida abusamos do nosso ambiente interior. Este é um chamado para que possamos voltar a viver em alinhamento com a nossa natureza interior, bem como com a natureza que sustenta o nosso planeta, e não apenas sobreviver para sofrer as consequências da ilusão de que somos donos de toda a Natureza.


No Druidismo existe a tradição do Círculo Druídico. Quando deixamos de acreditar que somos superiores, abrimo-nos para a experiência de viver em comunhão com a natureza, tornamo-nos parte dela e não seres à parte. Somos de novo recebidos no círculo do qual nunca chegamos a sair, exceto na nossa ilusão. Podemos novamente nos sentar em círculo à volta de uma fogueira, num círculo de pedras ou na clareira de um bosque. E, quando o fazemos, conseguimos sentir que estamos em comunhão não só com os nossos companheiros físicos do dia-a-dia, mas também com os espíritos dos animais e das árvores, das pedras e das estrelas, com os nossos antepassados e as nossas crianças, bem como com as crianças que virão muito depois de termos partido para rumar às Terras do Verão. Olhando para o céu noturno, nos conectamos e sentimos os espíritos animais a olhar para nós - e compreendemos porque é que os antigos Gregos nomearam o círculo das constelações como Zodíaco - cujo nome significa “o círculo dos animais vivos”.


O conhecimento dos poderes animais está longe de estar perdido, foi simplesmente negligenciado e talvez esquecido. A tradição indígena céltica e druídica nos ofereceu ao longo de mais de 7 mil anos de experiência e aprendizagem esta sabedoria. Ao estudar a história da humanidade encontramos mitos, costumes populares e provérbios, círculos de pedras e lugares sagrados, vestígios bárdicos e referências históricas que, quando reunidas e associadas com bom senso e intuição, revelam uma prática e um ensinamento que pode e está sendo revivido em várias partes do mundo.


Nossos antepassados reverenciavam todos os aspectos do mundo natural e consideravam os animais como aliados, guias e professores. Todo animal é imbuído de um poder espiritual e significado. Os animais, em particular, eram reverenciados pelas suas qualidades e eram vistos como sagrados à Deusa ou aos deuses.


Diz-se que um certo número de tribos ou clãs descenderam de animais, tais como o “Povo dos Gatos” na Escócia e as “Tribos do Lobo”, assim como os “Cabeças de Cão”, na Irlanda. Conta-se que algumas famílias tinham antepassados animais. A foca, por exemplo, era o antepassado original de pelo menos 6 famílias na Escócia e na Irlanda. A maior parte das tribos tinham os seus animais totêmicos, claramente demonstrados nos seus nomes, como os Caerini e os Lugi em Sutherland (“Povo das Ovelhas e “Povo dos Corvos”), os Epidii de Kintyre (“Povo dos Cavalos”), os Tochrad (“Povo dos Javalis”), os Taurisci (“Povo dos Touros) e os Brannovices (“Povo dos Corvos”).


As famílias tinham animais totêmicos, visíveis nos seus nomes, nos seus brasões ou nas suas tradições familiares. Os nossos antepassados adoravam e respeitavam os animais de tal forma que escolhiam ser enterrados com eles, para os ter como guias e companheiros no Outro Mundo. Usavam os seus ossos e os seus dentes como amuletos. Usavam as suas peles para se vestirem e fazerem os seus leitos, para fazerem os seus escudos, tambores e gaitas.


Os animais podem nos servir como guias neste mundo e no próximo, eles são nossos curandeiros, amigos e professores. São sagrados e companheiros dos Deuses. Apenas nós, uma humanidade recente e bidimensional, é que vemos os animais como sendo meramente criaturas “menores”, de inteligência inferior e de pouco valor, para além do fato de servirem de alimento.


A reverência pelos animais e a consciência de que eles são professores e guias é tão antiga quanto a própria humanidade. As grutas de Drachenloch, na Suíça, exibem altares com cerca de 70 mil anos dedicados ao Urso. Os animais eram claramente o centro de práticas religiosas desde os primórdios dos tempos. Usar peles de animais, cabeças e penas era uma forma de identificação com os mesmos, de ser estes animais por algum tempo, de partilhar dos seus poderes e de receber a inspiração divina.


Além de outros fatores, a importância dos animais na vida religiosa dos nossos antepassados é vista no fato de quatro dos oito festivais druídicos do ano, conhecidos como Festivais de Fogo, estarem particularmente ligados à vida campestre da pastorícia e da agricultura, e sabe-se que têm sido celebrados durante pelo menos os últimos 7 mil anos. No hemisfério norte, o Imbolc, comemorado no dia 1 de fevereiro, representa o tempo do nascimento dos cordeiros, dos vitelos e das primeiras sementeiras. O Beltane, no dia 1 de maio, assinala o início do verão, quando os rebanhos são levados para as pastagens altas. O Lughnasadh, no dia 1 de agosto, marca o início das colheitas e o Samhuinn, no dia 1 de novembro, assinala o princípio do inverno, quando os animais são levados até os vales, onde se fazem as matanças para a carne que deve ser conservada.


Um ponto central da visão de mundo druídica é a crença de que o mundo material em que vivemos não corresponde apenas a um nível ou plano de existência. Por detrás e para além deste mundo fica o Outro Mundo, o mundo dos poderes e das potências, dos espíritos e das forças que nos podem guiar e ajudar, se simplesmente conseguirmos reconhecer a sua existência e aceitar a sua realidade.


Os animais em particular, são reverenciados pela sua capacidade de estabelecer uma ponte entre estes Dois Mundos. Eles podem trazer-nos mensagens do Outro Mundo e agir como nossos guias nesse reino, quando nos despojamos dos nossos corpos na morte. Porque assim como os humanos, eles têm simultaneamente uma forma espiritual e uma forma física, podem ser os nossos guardiões e protetores, mesmo quando não estão fisicamente presentes. Embora cada animal tenha o seu próprio caminho para o Outro Mundo, um estudo sobre os animais demonstra que eles formam determinados grupos que se adequam particularmente a certas funções: alguns são mais adequados como guardiões e protetores, outros como curandeiros, guias, professores, transmutadores de forma ou familiares. É interessante reparar que a grande maioria destes animais são considerados sagrados à Deusa.


Fonte que serviu como base a este texto: O Oráculo Animal dos Druidas – Trabalhando com os Animais Sagrados da Tradição Druídica. Philip e Stephanie Carr-Gomm.


Ps.: Venho estudando e trabalhando com este Oráculo desde 2018 e senti em compartilhar (por meio deste texto) estes ricos ensinamentos. Para quem me acompanha por aqui (como um presente e como referência), senti 3 animais em especial. Vou escrever um pouco sobre eles e já já publico o material. Enjoy!